Be Live 2015: a crónica possível tentando não incomodar ninguém

por João Mendes 0

Reunidas as condições exigidas pelos carrinhos telecomandados e por outras criaturas amorosas que detêm o poder absoluto sobre o que se faz ou deixa de fazer e dizer nesta terra, ainda que mesmo assim alguns indivíduos entendam que falar sobre o assunto constitua uma grave ofensa a sabe-se lá o quê, estou de volta para pecar violentamente contra o regime e todos os que dele se alimentam e, heresia do cara***, vou escrever outra vez sobre o Be Live. Chamem a polícia sim?

Fiz a minha antevisão do Be Live neste espaço, escrevi sobre a descriminação dos jovens da freguesias limítrofes em termos de acesso ao local do evento no Notícias da Trofa e, como tal, não me repetirei. Queria apenas deixar uma palavra de agradecimento à claque do HCAPS (Hipócritas do Contra Apenas Porque Sim) pelo tempo que perdem a ler o que escrevo para depois se indignarem, sem contudo apresentarem os motivos de tal indignação, optando antes por fazerem aquilo que lhes mandam fazer sem questionar ou por simplesmente agirem como vassalos feudais, sempre prontos a dar o peito por gente que se está verdadeiramente nas tintas para eles. E eu sou um homem que sempre nutre compaixão pelos manipulados e pelos mentecaptos desta vida. O meu abraço amigo para todos vós.

Passemos então a coisas sérias.

O Be Live é provavelmente o maior êxito deste executivo. Sim, eu sei que se taparam uns buracos e que até vamos ter uma variante-remendo e outro centro de saúde. Mas o primeiro é basicamente um dos motivos pelos quais lhes pagamos para trabalhar (nada de espectacular portanto) e os segundos são, em larga medida, resultado directo do período eleitoral que se aproxima, que Pedro Passos Coelho e Paulo Portas precisam de todos os votos que conseguirem para continuar a privatizar o país e fazer aumentar a dívida tal como os seus pares socialistas. Já o Be Live é fruto da competência e engenho de alguns dos nossos responsáveis públicos (apesar de quase todos se tentarem aproveitar da situação como se tivessem servido para alguma coisa mais do que assinar papéis e fazer propaganda, muitas vezes sem saber do que se está a falar, sendo o caso em que o presidente Sérgio Humberto, na sua página de Facebook, se referiu ao Regula como “a banda Regula” um dos mais engraçados – alguém explica ao senhor que o Regula é apenas um artista que traz músicos de suporte com ele em alguns concertos e não uma banda?), sendo o vereador Renato Pinto Ribeiro o obreiro maior desta grande festa, a quem endereço os meus sinceros e entusiasmados parabéns, extensíveis à sua equipa.

Finalmente a Trofa tem mesmo uma semana da juventude decente, longe dos experimentalismos foleiros e medíocres do passado (e não me refiro aqui apenas ao período socialista, no tempo do outro senhor despesista a semana da juventude era também foleira e medíocre), que mobiliza pessoas, dá espaço às associações, músicos, escolas de dança, comércio e restauração locais e oferece um cartaz diversificado que, podendo ser melhorado, nomeadamente no que à diversidade musical diz respeito, foi um grande cartaz e permitiu mostrar a algumas “ovelhas perdidas em matos” que o trabalho dos nossos artistas não se paga com supostos privilégios que mais não foram do que desculpas de mau pagador. Espero que eles tenham tido oportunidade de ver do que eles são capazes, da sua imensa qualidade em palco e das multidões que arrastam. E outros que desta vez não tiveram a sua oportunidade poderiam fazer o mesmo, basta que lhes seja dado espaço.

É possível melhorar? Claro que sim. Fundamentalmente no que diz respeito à hora de fecho e à pela expansão do cartaz. Li a nossa presidente da AM referir, em publicação no Facebook, que “Não tarda estaremos ao nível dos grandes festivais inscrevendo a Trofa na rota dos festivais de verão!” mas não alinho neste tipo de triunfalismos, possivelmente influenciados por sentimentalismos e questões de alinhamento político. O Be Live foi fantástico mas no contexto em que se insere. Não se entra na rota dos festivais com quatro projectos musicais conhecidos, três bandas locais e quatro DJ’s. É preciso muito mais, do alargamento do horário de funcionamento do evento até pelo menos às 04h ao aumento significativo do cartaz, algo que poderia passar por dar espaço a mais projectos locais e trazer cabeças de cartaz com mais peso. É que, independentemente da espuma dos dias e do valor dos artistas, os DAMA e HMB não são cabeças de cartaz em lado nenhum (não estou a contestar os gostos de ninguém, apenas a constatar um facto) e mesmo o Mundo Segundo, Sam the Kid (dois dos meus artistas preferidos) e Regula não têm o peso suficiente para atrair a audiência que um festival de Verão necessita para ser financeiramente viável. Para além de que, estando o concelho da Trofa enterrado em dívidas, será que faz sentido entrar em despesismos excessivos num evento gratuito? Eu acho que não. Acho que vale a pena manter este modelo, continuar a apostar em artistas nacionais de renome e dar espaço a mais artistas, bandas e DJ’s trofenses que, em comparação com aquilo que vi nos dias que lá estive, não ficam a dever nada a quem lá esteve nos decks.

Ainda assim não tenho dúvidas em afirmar que o Be Live 2015 foi um sucesso. Uma aposta ganha por este executivo, que teve na pessoa de Renato Pinto Ribeiro o homem de visão para cortar com uma tradição de conservadorismo bacoco e arriscar muitas fichas para pôr de pé um evento que, pelo segundo ano consecutivo, demonstrou ao concelho que é possível ter um evento digno da população jovem, que nos permita a todos ouvir boa música, conviver e conhecer actividades que, por todo o concelho, vão mudando as vidas dos mais novos. E tudo isto no centro da cidade.  A manchar o quadro, na minha opinião, apenas o momento de propaganda, raro nestas ocasiões, que levou o autarca ao palco no concerto dos DAMA para, ainda durante o concerto trazer a política para um local onde esta não era chamada.

Finalizo estas linhas com uma comparação que poderá dar azo a diferentes reflexões. Pelo mesmo preço, na casa dos 65 mil euros, o executivo organizou em 2014 um festival de cinema – Cinetrofa – que esteve permanentemente às moscas, excepto no dia da sessão de encerramento em que a elite política deu à costa em massa para tirar fotografias e evitar a vergonha absoluta de uma iniciativa que até foi boa apesar de ter sido um desastre em termos de participação. A mesma elite que não apareceu num outro festival, o FesTrofa, organizado por gente que aparentemente não conta com o apreço das elites dirigentes e respectiva corte, apesar do elenco de luxo que trouxe à Trofa e da prestação claramente superior à da iniciativa camarária com um orçamento muito inferior. Um pouco à semelhança do que se passou com os bares locais, onde alguns tiveram o “privilégio” de receber a comitiva do regime, com direito a fotos e tudo, ao passo que outros, remetidos para junto das casas de banho através de um concurso polémico e pouco democrático de atribuição de espaços, não foram abençoados com tão distinta visita. Curiosamente os mesmos bares cujos proprietários não tiveram a possibilidade de subir ao palco no último dia para, tal como outros indivíduos, dar azo a triunfalismos e lançar provocações baratas para o ar em tom de voz caracterizado pelos próprios em termos, digamos, homofóbicos. Mais do que ser se exigir igualdade no tratamento, nestes e noutros casos, fico na expectativa de uma tomada de posição por parte dos responsáveis face a tão triste episódio.

E lembrem-se que não são apenas os bares, as bandas, as associações ou mesmos os políticos que fazem o Be Live. São essencialmente as pessoas que lá vão, porque sem elas, o evento seria apenas um espaço bonito para o convívio de moscas. A aguardar com expectativa a edição de 2016, na esperança que o rock regresse e que os meus conterrâneos de outras freguesias sejam abençoados pelo orgulho trofense que lhes coloque um dos autocarros municipais à disposição.

Foto@Correio da Trofa

P.S. Qualquer passagem no presente texto que o caro leitor possa interpretar como elogio aos responsáveis políticos deste concelho é fruto da vossa imaginação. Segundo os carrinhos telecomandados e restantes criaturas amorosas que detêm o poder absoluto sobre o que se faz ou deixa de fazer e dizer nesta terra, tal hipótese e pura e simplesmente impossível. Não se contrariem os donos da razão.

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

Comentários

  1. Ernesto Jovial

    Faço tuas estas palavras, até porque são. Não as faço minhas, porque o texto não contém vernáculo, algo que acho que faz falta para dar ênfase à mensagem. Mas concordo em absoluto. Gosto de ver a Trofa evoluir. Pode ser que um dia, a Trofa se torne na cidade que sonhei! :)

    1. João Mendes

      Amigo Ernesto, Antes de mais, obrigado pelo teu comentário, o primeiro no nosso renovado espaço :) A ausência do vernáculo deve-se a, no caso específico, ser desnecessário. Como sabes, recorrei a ele sempre que tal se tornar imperativo. De resto os teus sonhos continuam a ser bem vindos. A porta do E a Trofa é minha está aberta. um abraço

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