Sobre intervenções encomendadas na Assembleia Municipal

por João Mendes 0

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De ontem a oito dias haverá Assembleia Municipal. Convido desde já todos os nossos leitores para se juntarem a mim e virem presenciar este que é o expoente máximo da democracia local. Claro que se assistem a alguns atropelos mas há espaço para que todos levantem dúvidas e questionem o executivo. O pior que vos pode acontecer é serem convidados a “emigrar” para Santo Tirso. Mas voltando à fatídica Assembleia Municipal de 27 de Fevereiro, houve uma intervenção do presidente da câmara que me levantou uma série de dúvidas, que decidi partilhar convosco. Disse Sérgio Humberto:

“Às vezes eu compreendo a indignação do presidente da junta de Alvarelhos/Guidões, que anda no terreno, é um homem do povo, que gosta das duas freguesias, e compreendo a indignação de ver uma pessoa, que não sabe o que diz nem diz o que sabe, diz o que lhe mandam dizer, que é que a gente há-de dizer? Como o Papa Francisco diz: nós temos que gostar dos que gostam de nós e temos também que gostar daqueles que não gostam de nós. Que ainda, com um bocadinho de esforço, é isso que nós temos que fazer. Ele um dia vai crescer. Um dia espero bem que goste da Trofa mais do que do seu Partido Socialista. Um dia espero que diga aquilo que ele pensa e não o que lhe escrevem ou que lhe mandam dizer e um dia, se calhar, terá mais respeito pela população da Trofa, relativamente aquilo que diz e não diz o que sabe.” (ver vídeo em cima a partir do minuto 01:34:00)

Muito haveria a dizer sobre estas linhas, da manipulação de sentimentos de pertença (“Um dia espero bem que goste da Trofa mais do que do seu Partido Socialista“) à tentativa básica e incongruente de acusar Marco Ferreira de desrespeito pela população da Trofa, passando pela tentativa de “infantilização” do líder socialista, algo particularmente engraçado quando dito por alguém que se submeteu a um processo de envelhecimento digital eleitoral para piscar o olho às populações mais idosas do concelho, não fossem estas achar que estavam perante um “puto”. Qualquer uma destas ideias dava um novo artigo, na medida em que a acusação de gostar mais da Trofa do que do partido é algo que pode ser facilmente e nos mesmos termos usados pelo presidente imputado a inúmeros membros do PSD Trofa como, da mesma forma, é possível apontar o dedo a militantes sociais-democratas locais de desrespeitar a nossa terra.

Mas o que me traz aqui é a acusação, legítima no meu entender, através da qual Sérgio Humberto acusa Marco Ferreira de ser um mero fantoche do partido, que não diz aquilo que pensa mas aquilo que lhe mandam escrever. Não digo que seja o caso mas trata-se de uma acusação perfeitamente legítima quando enquadrada nos pressupostos político-partidários intrínsecos à preparação destas assembleias e que vale para todos os partidos, não apenas para o PS.

A questão é que, partindo da acusação do presidente, é também legítimo fazer a exacta mesma acusação a alguns membros da coligação Unidos pela Trofa. Entre tantos outros exemplos que poderia enunciar, desta e de outras assembleias, fiquei particularmente intrigado com a  intervenção da  social-democrata Liliana Patrícia, que ao minuto 59? questiona Sérgio Humberto sobre a renegociação da dívida de 14 milhões de euros à CGD (PRF).

Aquilo que me chamou a atenção, para além domínio dos números demonstrado pela membro da bancada do PSD, que mesmo assim quase não tirou os olhos do papel que estava a ler, foi esta curiosa frase: “Temos quase a certeza que não ficou parado perante esta situação, pois é inaceitável que um município como a Trofa esteja a abarcar uma situação destas”. Na sua resposta, Sérgio Humberto revelou existirem avanços positivos nesse dossier, num tom que pode ser considerado populista, recorrendo a termos como “inspiração” e “transpiração“, e, ironia das ironias, a resposta para esse problema tinha acabado de chegar nesse mesmo dia. Uma maravilhosa coincidência.

Ora a 27 de Fevereiro, o desfecho deste tema não era ainda público, pelo menos a julgar pela comunicação social local que só desenvolveu o tema quase duas semanas depois. Claro que, não podemos descartar a hipótese de esta questão ter sido elaborada por Liliana Patrícia, no sossego do seu lar, sem dar cavaco a qualquer dos seus colegas de partido. Da mesma forma, é legítimo usar da exacta mesma acusação feita ao líder do PS e supor que a pergunta foi escrita por outrem, encomendada. É igualmente legítimo afirmar, fazendo novamente uso das palavras do presidente, que Liliana Patrícia “não sabe o que diz nem diz o que sabe, diz o que lhe mandam dizer“. São tiros que fazem ricochete. O que é que a gente há-de dizer?



João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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