Carta aberta ao Dr. Sérgio Humberto, presidente da Câmara Municipal da Trofa

por João Mendes 0

(caso não concorde com a afirmação em cima, é favor mudar-se para Santo Tirso)

Caro Dr. Sérgio Humberto,

Antecipo os meus melhores cuprimentos.

Contrariando a opinião de alguns militantes mais insensatos do seu partido que defendem a não-ingerência em determinados assuntos relativamente aos quais aquele que pretende opinar não assistiu ou participou, opinião que considero absurda e digna de um “democrata” ao estilo de Vladimir Putin, dirijo-me a si, em carta aberta, através deste blogue que sei ser frequentado por alguns daqueles que o rodeiam, pelo que estou confiante que a mesma chegará até si.

Indo então directo ao assunto que me leva a escrever estas linhas, queria declarar, enquanto cidadão, eleitor e contribuinte trofense, o meu total repúdio pelas suas declarações na passada Sexta-feira, no decorrer da uma das suas intervenções na Assembleia Municipal. Afirmou o senhor o seguinte:

“O futuro passa realmente pela Trofa. E quem não acredita, que vá para Santo Tirso. Quem não acredita na mais-valia das pessoas da Trofa (…) não deve ter responsabilidades num órgão como este como a Assembleia Municipal.”

Em primeiro lugar, dizer-lhe o quão lamentável é assistir a um discurso deste grau de sectarismo por parte de um representante eleito. Quem não acredita que o futuro passa pela Trofa tem o mesmo direito de o fazer que qualquer pessoa afecta ao partido do senhor presidente teve de duvidar de tudo e mais alguma coisa que o anterior executivo afirmou ou manifestou interesse em consubstanciar. Questiono-me se, em sede de reunião interna do partido que o senhor dirigiu, alguma vez convidou algum militante a mudar-se para o concelho vizinho em função de discordâncias com o anterior executivo. E isto inclui-o também a si claro.

Em segundo lugar, relembrar-lhe que, autarca ou não, o senhor presidente não tem autoridade para convidar quem de si discorda a mudar-se para um concelho vizinho. Ao invés disso, e por ser o primeiro representante do município, a sua acção deveria ser de concórdia, de apelo ao entendimento e, quando tal não for de todo possível, aceitar as críticas e rebatê-las com argumentos construtivos ao invés de o fazer com a demagogia com que o fez. Não se trata de concordar com as críticas que podem até não fazer sentido algum: trata-se de dar o exemplo e seguir as melhores práticas democráticas. Lançar um anátema de banimento concelhio no tom de voz imediatamente anterior ao grito a quem de si discorda não dignifica a sua função.

Em terceiro lugar, tentar transformar uma crítica feita à sua acção num ataque de desacreditação da “mais-valia das pessoas da Trofa” é absolutamente demagógico e populista. As pessoas da Trofa, bem como as suas mais-valias, e o executivo camarário não são uma e a mesma coisa. E mesmo que senhor presidente se estivesse a referir aos eleitores da coligação, que também não podem ser confundidos com o seu executivo, seria importante relembra-lo que foi eleito por cerca de 33% da população (10.092 eleitores) da Trofa e não por 100% o que, não beliscando, de forma alguma, a sua legitimidade enquanto autarca, não lhe confere, de forma alguma, autoridade para confundir a sua acção ou vontade com a acção ou vontade de todos os trofenses.

Em quarto e último lugar, referir que o tipo de linguagem de comício não me parece o mais apropriado para um autarca, principalmente no contexto de uma Assembleia Municipal. Declarações deste grau de sectarismo não deviam ter lugar numa Assembleia Municipal. Não a dignificam. Mas já que o presidente puxou da questão relativa a quem deve ou não deve ter responsabilidades num órgão desta importância, o que pensará o senhor do facto de ter um elemento da sua bancada que esteve envolvido num esquema de mentira, manipulação e violência física? Será que alguma vez o convidou para se mudar para Santo Tirso?

Finalizo esta carta relembrando-o que, apesar da aproximação das Legislativas, a crispação e a subida de tom a que temos assistindo nas últimas semanas, do qual o recente comunicado da JSD Trofa, com ódio e manipulação à mistura, é expressão maior, não beneficia as aspirações do seu partido, relativamente às quais acredito que não será alheio. Entrar num braço-de-ferro que, por ser vago, extravasa o alvo primário do seu ataque – o Partido Socialista da Trofa – poderá criar divisões que terão custos políticos óbvios para o seu projecto. Entre ajustes directos suspeitos, a guerra aberta contra o Partido Socialista e os episódios sombrios a envolver violência e destacados elementos do seu partido, penso que terá já problemas suficientes com que se preocupar. Quando o governo que apoia mandou os portugueses emigrar, a coisa não correu lá muito bem. Não caia, por favor, no mesmo erro. Em vez de mandar os críticos migrar para Santo Tirso, sugiro-lhe que seja superior e respeite a sua opinião. Lembre-se que a sua função é servir o concelho, não regresse ao passado que tanto criticou.

Atentamente,

João Mendes

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

Comentários

Deixar um comentário

Faça Login para comentar.