O polémico reservatório de água de Valdeirigo

por João Mendes 0

(foto: O Notícias da Trofa)

O reservatório de água de Valdeirigo que surge na foto já cá estava antes de mim. Lembro-me perfeitamente de ali passar, seguramente milhares de vezes, no final das aulas, a caminho da casa de amigos ou em longas “voltas” de bicicleta nos Verões em que as crianças ainda não eram dependentes de tecnologia e brincavam fora de casa. Mais tarde, quando o tempo passou a ser mais curto e o sedentarismo mais acentuado, os pés e a bicicleta foram sendo progressivamente substituídos pelo carro e confesso que nunca tive qualquer dificuldade de circulação derivada da existência daquela construção, mesmo em hora de ponta e com desvios à mistura. Hoje sem utilidade na função de armazenamento de água, o reservatório ali continua, qual porta de entrada para a aldeia*.

Por estes dias, a decana estrutura foi alvo de algum protagonismo e polémica, primeiro por ter sido sujeita a uma intervenção de requalificação por parte da Junta da UF de Bougado, como é visível na foto, e depois por ter sido alvo de uma petição com vista à demolição da mesma. Apesar da petição ser anterior à obra, o que deita completamente por terra o processo de vitimização em curso levado a cabo por apoiantes “politico-futebolísticos” do actual executivo, foi preciso que esta requalificação acontecesse para que a mesmo ganhasse visibilidade. Contudo, respeito-a e saúdo-a por ser um exercício de cidadania que reforça a participação popular na condução dos assuntos que a afectam. A menos que, claro, a mesma seja impulsionada por interesses terceiros por baixo da camuflagem peticionária. Não seria novidade por estes lados.

Como não encontrei a petição, vou cingir-me aos elementos veiculados pela comunicação social e pelo que fui lendo nas redes sociais. Por um lado existe o processo de requalificação que, na minha opinião, é positivo, não deverá ter envolvido verbas relevantes e “lava a cara” a uma estrutura que pode muito bem ser encarada como uma porta de entrada para Valdeirigo e que, convenhamos, numa situação normal não coloca impedimentos ao normal fluir do trânsito. Acrescente-se a isto a tendência cada vez maior para requalificar elementos caídos em desuso mas ainda assim parte da paisagem urbana de aldeias, vilas e cidades, prática transversal a todo o país, e esta iniciativa faz ainda mais sentido.

Por outro lado existe a petição. A única versão de que tenho conhecimento é a de que um morador das imediações terá tomado a iniciativa, não só por causa do reservatório mas também por causa do ecoponto que ali está, e que muitas das assinaturas recolhidas tiveram mais a ver com solidariedade entre vizinhos do que propriamente com a percepção desta alteração como um problema de maior. Isto foi-me dito por moradores do local que assinaram a dita petição e cujos nomes não são para aqui chamados e, como tal, vale o que vale. Fica portanto a dúvida se o problema se prende com condicionalismos de ordem pública ou privada. Em qualquer dos casos, a petição continua a beneficiar de total legitimidade. Porém, se as regras da prioridade forem respeitadas, o probabilidade de choques entre quem desce a Rua Almirante Gago Coutinho e que segue na mesma direcção pela Rua Pintor José Malhoa é muito reduzida, situação que poderá ser mais minimizada ainda com a colocação de sinalização adicional, nomeadamente um sinal de aproximação de estrada com prioridade no final da Pintor José Malhoa. Ou mesmo um STOP.

Na Assembleia de Freguesia da UF de Bougado do passado dia 19 de Setembro, um grupo de representantes do movimento peticionário esteve presente e, pela voz de Emídio Neves, instou o executivo a demolir a estrutura e a mudar o ecoponto que ali se encontra para outro local. No seu lugar sugeriram a colocação de uma imagem de Santa Margarida, padroeira da aldeia. E aqui fiquei confuso: então uma estrutura de pilares, através da qual é possível ver, cria complicações ao trânsito mas uma estátua não? Estranho que se queira resolver o problema colocando lá outra estrutura

Também na assembleia, o representante dos peticionários referiu que “Quando um comboio deixa de circular, tiram-se os trilhos. Ali deixou de passar água há mais de 20 anos, pelo que o depósito não está lá a fazer nada.” o que me parece uma afirmação irreflectida e de certa forma “perigosa”. Se assim fosse, teríamos que eliminar todo e qualquer equipamento público que não estivesse a ser utilizado, desde capelas fechadas há anos até as azenhas ao longo do Ave, passando pelos edifícios das antigas estações da Trofa e Muro. Nem 8 nem 80.

Argumentos à parte, existe aqui no meio um dado muito interessante que deixei para esta reflexão final. Na sua intervenção, Emídio Neves apontou o dedo ao actual executivo da junta por ter feito “ouvidos de mercador” às reivindicações dos 300 peticionários. Nas suas palavras, o presidente Luís Paulo não esteve disponível para receber a petição e “Disse que não era assim que as coisas funcionavam. Eu (Emídio Neves) acho que a vontade das pessoas deve permanecer em quem está nos cargos. Fiquei muito surpreendido por viver num pais democrático, onde as pessoas não são ouvidas“. Aqueles que estão mais a par da comunicação do actual executivo, tanto agora como quando andavam em campanha, saberão que uma das bandeiras da coligação foi a proximidade da população, sabendo receber todos sem excepção e estando sempre disponíveis para os ouvir. Ora as palavras de Emídio Neves são uma enorme machadada neste que é um dos grandes argumentos do “orgulho trofense” e daquilo que distingue este executivo do anterior que, supostamente, não sabia ouvir os trofenses. Vale a pena pensar nisto, é que agora e sempre, há uma linha que separa a realidade e o discurso político mais emotivo e propagandístico. Quanto ao polémico reservatório, penso que se está a fazer uma tempestade num copo de água. Entre um reservatório de água e uma imagem religiosa, será que existe mesmo um diferença substancial na resolução dos problemas referidos? Ou haverá aqui algo mais que nos escapa?

*****

*A terminologia usada – aldeia – não é a academicamente correcta. Porém, optei ainda assim por usá-la num contexto histórico-etnográfico, pois apesar de hoje se integrar no tecido urbano da cidade da Trofa, Valdeirigo foi, em tempos, uma aldeia. Agradecimento ao Hélder Santos pelo esclarecimento e pela aula de Geografia gratuita :)

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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