Precedente, resultado e legitimidade: estaremos prontos para dar o salto?

por João Mendes 0

Enquanto outros se esforçam por mostrar que o seu partido é o “maior da aldeia” porque fez a melhor festa de sempre ao mesmo tempo que se vão amealhando votos para o próximo assalto ao poder, existem 3 aspectos fundamentais que devem ser tidos em conta e que, muito provavelmente, melhor representam a grande vitória subjacente ao sucesso da recente semana da juventude.

Em primeiro lugar, abriu-se um precedente sem precedentes: ao contrário daquilo que é tradicionalmente assumido como verdade absoluta – que na Trofa não se passa nada e, quando passa, ninguém quer saber – a semana da juventude provou que basta haver uma boa oferta musical para que se consigam juntar 2 ou 3 mil pessoas num evento (não sei se foram tantas ou se foram até mais porque não passo de um crítico movido pela má-fé que nem sequer colocou os pés no evento nem tem direito a opinar sobre ele, estou a disparar para o ar, nivelado por cima para tentar agradar a determinada elite). Se é possível neste contexto, com festivais com cartazes de topo a 30km e exames nacionais a coincidir com as datas do próprio evento,imaginem se a data fosse efectivamente bem pensada. Agora desafio qualquer um a apresentar um bom argumento para que iniciativas destas não se repitam mais vezes. O precedente está aberto, exploremo-lo.

Em segundo lugar, o resultado. Apesar dos problemas já identificados, a festa aconteceu e teve uma dimensão sem comparativo histórico. Ora bem, não estou certo que estes concertos tenham tido mais ou menos assistência que outros do passado como o concerto de Da Weasel no mercado há uns 15 anos atrás. O mercado estava a abarrotar. Mas é bem possível que este evento tenha enchido mais. E se tal aconteceu, isto significa que existe receptividade por parte dos jovens da Trofa. Mais: o último dia comprovou que o hip hop continua em alta no concelho. O concerto de Dengaz poderá ter arrastado muita gente mas a 61, até pelos vídeos disponíveis por ai, tinha uma legião afinada à sua espera. O resultado final mostra-nos que a aposta na música é uma aposta ganha e que o local, ao contrário do que determinadas elites arrogantemente afirmavam há um ano atrás, tem condições mais do que adequadas para o efeito. Exploremos o precedente aberto neste sentido. Pode haver outro tipo de oferta? Pode sim senhor. Há muito para explorar nas artes deste concelho. Mas é preciso começar por algum lado e este parece-me perfeitamente viável.

Em terceiro e último lugar, resulta da semana da juventude a legitimidade para que possamos exigir mais eventos desta natureza. Não dá para pagar Richie Campbells todos os fins-de-semana? Pois claro que não. Mas é possível que organizações independentes ou mesmo a própria CMT possam levar a cabo outros eventos de natureza semelhante, onde o financiamento da autarquia seja substituído por taxas de exploração pagas pelos bares e bilhetes de baixo custo para acesso ao evento em si. Até porque nem todos os artistas custam 15 mil euros para actuar pouco mais de uma ou duas horas. Mas o importante a reter é que será legítimo exigir pelo menos uma autorização de utilização do espaço público e a possibilidade de, ocasionalmente, fazer algum barulho extra até às 02h. Afinal de contas, se até o camião da coligação pôde fazer barulho depois dessa hora e a festa era apenas de dois partidos políticos, que argumento haverá para impedir que toda uma juventude usufrua das mesmas condições?

Temos que começar por algum lado. Agora o marasmo em que temos vivido durante quase toda esta existência enquanto concelho é que já não faz sentido. Não quero com isto dizer que a CMT tem obrigação de organizar concertos todos os meses. Até porque a oferta cultural não se resume a música e concertos. Mas é fundamental que hajam iniciativas neste sentido e que se permita que entidades privadas as possam levar a cabo sem constrangimentos absurdos. Abriu-se um precedente e obtiveram-se resultados evidentes pelo que está na hora de dar o salto. É legítimo.

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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