Tiro ao Sá e outras parcialidades político-partidárias

por João Mendes 0

Recentemente, Luís Paulo, presidente da Junta da Freguesia onde habito, deu umaentrevista ao jornal O Notícias da Trofa. Apesar de algum conteúdo bastante positivo, nomeadamente no que diz respeito às obras já realizadas na freguesia, sempre em “estreita colaboração e parceria com a Câmara Municipal da Trofa” (ou não fossem todos da mesma “equipa”), e ao anúncio de uma série de apoios previstos nas áreas da cultura, acção social, desporto e educação, confesso que esperava um discurso diferente daquele que habitualmente norteia as guerrilhas políticas entre PS e PSD mas, em alguns aspectos, as minhas expectativas saíram frustradas. Assumo que, não o conhecendo pessoalmente, tenho uma ideia francamente positiva do autarca, mas fico sempre chateado quando me deparo com análises parciais e tendenciosas da realidade.

Logo na primeira pergunta, quando questionado sobre o balanço dos primeiros meses à frente dos destinos da União de Freguesias de Bougado, Luís Paulo não hesitou em apontar o dedo à herança que lhe foi deixada por um dos seus antecessores. Arrisco dizer que se referia a José Sá, o socialista que geriu a Junta de São Martinho de Bougado até Outubro passado. Fico sempre apreensivo quando vejo toda a culpa de um problema recair sobre uma só pessoa, principalmente quando foi um autarca do seu partido, Bernardino Vasconcelos, que destruiu as contas públicas de todo o concelho. Mas o ataque a José Sá não se ficou por aqui. Mais à frente, Luís Paulo acusa a extinta Junta de Freguesia de São Martinho de Bougado de pura e simplesmente não colaborar com as associações locais. Não sei se era sua intenção mas, dito desta forma, o tiro acabou também por atingir Manuel Pontes e João Sá, seus companheiros partidários. Danos colaterais. Já o ataque a José Sá não é novo e ainda não fez dois meses que a Silvéria relatou um episódio dessa natureza.

Não quero com isto dizer que José Sá não tenha cometido erros. É óbvio que cometeu. E ainda existe uma polémica sobre a venda de “condomínios fechados” no cemitério de São Martinho por explicar. Mas culpar o único autarca que não é do seu partido é fácil. E encaixa perfeitamente na lógica político-partidária assente em atirar as culpas para o adversário, ignorando os erros dos seus camaradas/companheiros, tão típica e gasta do universo do bloco central. É por estas e por outras que se PSD e PS se fundissem ninguém dava por ela…

Outro aspecto que me chamou a atenção prende-se com o facto de o autarca social-democrata referir que a vitória expressiva que teve nas últimas autárquicas aumentou a exigência de rigor, empenho e transparência. Não querendo colocar isso em causa, e porque ainda é cedo para falar em rigor e empenho, apesar dos bons sinais que tenho observado, nomeadamente no que diz respeito à redução de custos da Feira Anual, é bom relembrar que, imediatamente após as eleições, a esposa de Miguel Costa, um dos seus homens fortes durante a campanha e actualmente membro do executivo da Junta, foi nomeada para presidir à Trofaguas, na qual já trabalhava em conjunto com o próprio Miguel Costa que acumula agora funções na Trofaguas e na Junta de Freguesia de Bougado. Não querendo colocar o valor de qualquer um dos dois em causa, é bom relembrar os ataques furiosos que inúmeros militantes do PSD local desferiram durante quatro anos contra as nomeações feitas por Joana Lima na mesma empresa. Haverá mais transparência nesta nomeação do que nas nomeações da anterior autarca?

Outro aspecto a reter tem a ver com os projectos da Casa Mortuária e do Centro Cívico de Santiago de Bougado, duas bandeiras eleitorais abanadas pelos sociais-democratas para a extinta freguesia de Santiago. Se, para mim, o argumento de Luís Paulo faz todo o sentido, argumento esse que aponta a agregação das freguesias como factor que obriga a repensar ambos os projectos, não faz sentido absolutamente nenhum que o autarca se esconda atrás do “constrangimento financeiro que o país atravessa” pelo simples facto desse constrangimento já existir quando as promessas foram feitas. Que me perdoe o senhor presidente, mas esse argumento não cola. Resta saber se fomos novamente vitimas de uma manobra eleitoralista.

Finalmente, um último detalhe chamou a minha atenção: afinal, a resolução do problema dos buracos atrasou-se por causa do Inverno rigoroso. Um argumento válido, pelo menos para mim, mas que em tempos foi ridicularizado pela JSD e por inúmeros sociais-democratas nas redes sociais. As guerrinhas idiotas têm destas coisas. E as intenções de quem instrumentaliza este tipo de detalhes diz também muito sobre as pessoas que o fazem e as suas reais intenções: poder e supremacia partidária.

Antecipando alguns “incómodos” que as minhas palavras possam gerar, quero relembrar o caro leitor que é o próprio Luís Paulo que as legitima quando afirma que “Queremos que a nossa competência e honestidade, possam ser avaliadas e escrutinadas por todos e em qualquer momento“. Assim sendo, as questões que levanto, coerentes ou não, não são apenas legitimas, mas encorajadas pelo meu presidente de Junta. Bem haja ele por isso!

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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