Fábulas de um Abril socialista há muito perdido

por João Mendes 0

Quiçá para recordar os bons velhos tempos de militância na esquerda do espectro, o Partido Socialista da Trofa, à imagem de outras repartições deste partido “híbrido” um pouco por todo o país, levou a cabo uma sessão comemorativa dos 40 anos do 25 de Abril. E como este partido mudou em 40 anos. Das lutas revolucionárias pela liberdade e pelas condições de vida dos portugueses até ao presente marcado pelo mesmo clientelismo, corrupção e vassalagem ao PSI-20 vai um caminho bem longo.

Foi então no passado dia 23 de Abril que decorreu a “Tertúlia da Liberdade”. Confesso que gostava de ter estado presente (a entrada era aberta a qualquer pessoa interessada) mas não tive oportunidade. Declamou-se Ary dos Santos, evocou-se a Revolução de Abril, da qual o PS tanto se afastou nos últimos anos, e, como não poderia deixar de ser (mas devia), fez-se política partidária.

No seu discurso, e segundo li n’O Notícias da Trofa, o actual presidente da concelhia socialista da Trofa deixou críticas ao actual governo nacional pelo “ataque ao poder local”. O que Marco Ferreira não referiu foi o facto desse ataque ter origem no memorando de entendimento que o seu partido assinou e ao qual se irá manter fiel até ao final da sua vigência, lá para o final da década de 30 do corrente século. Omissão para a qual só encontro justificação no campo do tacticismo político mas talvez esteja enganado…

Marco Ferreira pronunciou-se ainda sobre o grande problema que representam as promessas não cumpridas por parte dos nossos políticos. Eu concordo com o líder socialista, trata-se de um problema, uma vergonha e uma péssima característica da classe política nacional, com destaque para o PSD e para o seu próprio partido, o PS. Mas se tais afirmações são no mínimo humorísticas nesta fase de pré-campanha para as Europeias, onde o seu líder António José Seguro anda a falar de eurobondse mutualização da dívida ao mesmo tempo que o líder de Seguro, Martin Schulz, rejeita categoricamente estas soluções, não será menos anedótico quando enquadrado no anterior executivo camarário que prometeu “jardins com flores” e metros e apenas nos deixou um Parque das Azenhas a desfazer-se aos pedaços e uma união de parques marcada pela dúvida e pela derrapagem temporal e financeira que só beneficiou a empresa de António Salvador, responsável pelo quinto melhor orçamento, um daqueles eternos pontos de interrogação que ninguém sabe muito bem explicar mas que pode imaginar o porquê. Posto tudo isto, fiquei com a sensação de que Marco Ferreira disparou para todos os lados, para dentro e para fora do partido. Tentou disparar sobre o PSD/CDS-PP e acabou por atingir, com igual “violência”, o seu próprio partido.

Mas a parte que mais apreciei do discurso de Marco Ferreira citado pelo NT, prende-se com uma alusão às últimas autárquicas, relativamente às quais defende que os seus adversários deram um mau exemplo democrático, marcado sobretudo pelo que entende ser “uma política de insinuações” e de “panfletos anónimos”, prometendo, de futuro, “uma postura democraticamente séria e condizente com os valores” do PS. A menos que Marco Ferreira tenha sido subitamente tomado por algum surto amnésico, talvez tenha ainda presente aquilo que foi a postura de alguns elementos da lista socialista às últimas autárquicas, com destaque para o candidato a vereador Mário Duarte, pessoa que usou da insinuação (e do insulto) para refutar, sem sucesso e de forma até bastante patética, críticas legítimas feitas no âmbito do aproveitamento político que a sua lista fez da obra do Parque das Azenhas. Os autores deste blog estiveram entre os visados.

Já no campo do anonimato, gostaria de relembrar, caso ele um dia tenha tempo para perder a ler estas palavras, o incontornável militante socialista trofense, carinhosamente conhecido neste espaço como Fernando Pessoa, que, ao abrigo de um anonimato extremamente amador, divulgou o CV de Sérgio Humberto para o atacar relativamente ao salário auferido enquanto membro integrante da equipa de Bernardino Vasconcelos, fazendo debaixo de um manto de cobardia e falta de carácter aquilo que foi incapaz de fazer dando a cara. Penso que ficamos esclarecidos quanto à questão do anonimato, arma tão comumente usada por políticos cobardes que gostam de cultivar falsas imagens de candura.

Posto isto, as declarações do antigo líder da JS, onde este se mostra “preocupado com o que parece ser uma política de perseguições desta Câmara Municipal a tudo o que é socialista, seja dentro da própria autarquia ou nas associações” têm para mim muito pouco valor na medida em que isso foi também aquilo que aconteceu ao PSD em boa parte do mandato do PS. E isto ganha um toque de “requinte” quando sai da boca daquele que, em plena Assembleia Municipal insultou e humilhou o antigo presidente Bernardino Vasconcelos oferecendo-lhe uma garrafa de vinho.Insultos, mentiras, cobardia anónima e tacticismo politico não são valores de Abril, são valores de um bloco central podre do qual o PS de Marco Ferreira é parte integrante. Abril há muito que se perdeu nos corredores do Largo do Rato. O PS de hoje gosta mais de banqueiros e construtores civis. Tal como o seu partido irmão, o PSD.

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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