A maior feira agropecuária do norte do país

por João Mendes 0

(Fonte: site oficial da Feira Anual da Trofa)

É o que venho escutando por ai. Nem me dou ao trabalho de pesquisar a fundo se é mesmo porque prefiro acreditar que é e que o facto de tal ser algo comumente aceite pelos meus conterrâneos significa alguma coisa. Tantos trofenses juntos não poderão estar enganados.

Este ano fui lá dar a minha voltinha, ainda que com uma equipa substancialmente menor que o habitual, quando alguns tios e primos e respectivas descendências aproveitam a deixa para aceitar aquele convite para o almoço e ver os bichinhos no final. As descendências são as mais entusiastas e os adultos, “académicamente” conhecedores do contexto, observam e comentam tudo com interesse e assertividade. Compram-se doces brancos para a Dona Raquel e regressamos para o lanche. Mas desta vez foi diferente. Desta vez foram afastados pela chuva. Fui eu e o meu pai. E trouxemos o doces.

Do recinto, na minha opinião muito bem organizado, em linha com anos anteriores, destaco duas coisas que me surpreenderam pela positiva: o asseio das áreas onde estavam os animais (acho que em tantos anos nunca vi aquilo tão limpo) e a tenda branca no meio do recinto para os espectáculos musicais. Uma boa maneira de contornar o mau tempo que pode surgir nesta época do ano. Algo que permitiu também fazer uma espécie de after party da Feira Anual, com alguns dj’s trofenses. Mas, de uma forma geral, o evento esteve igual a si mesmo, com um leque de actividades idêntico a anos anteriores.

O grande problema foi mesmo a chuva, que não só afastou os meus tios, primos e descendências como muitas outras pessoas que habitualmente rumam à Trofa por esta ocasião. Notava-se nas ruas a diminuição de carros estacionados, notava-se na feira e tornou-se mais evidente ainda quando a organização se viu forçada a adiar as provas hípicas para o fim de semana seguinte. Foi pena mas nada que nos deva surpreender durante o Inverno.

Provavelmente como forma de atrair novamente muita gente de dentro e de fora da Trofa, pelo segundo fim de semana consecutivo e ainda sob ameaça de mau tempo (pelo menos quando a segunda parte foi planeada), a organização do evento puxou uma cartada alta e contratou, em cima da hora, um dos magos da festa popular: Quim Barreiros. E digo em cima da hora por partir do princípio que a organização planeou a Feira Anual para acontecer entre 28 de Fevereiro e 2 de Março. Era pelo menos isso o que nos dizia oprograma oficial do evento. Se assim foi, parece-me lógico não ter havido tempo para grandes negociações. E é sabido que o cachet de Quim Barreiros não costuma ser inferior ao intervalo 6-10 mil euros.

Porque é que isto é importante? Fundamentalmente por dois motivos. Em primeiro lugar porque, ainda que nessa noite o recinto tenha enchido e os comerciantes tenham feito render o seu trabalho, a noite seguinte esteve praticamente deserta. Por volta das 23:30/00h já poucas pessoas restavam no recinto. Ora há aqui um desequilíbrio na oferta: num dia um orçamento “milionário” (são sempre alguns milhares) e no outro um orçamento brutalmente inferior. Será que uma gestão mais equilibrada do valor disponível não permitiria uma cartaz igualmente atractivo em ambos os dias, dando à Trofa duas noites de maior animação nocturna, algo que, é sabido, funciona muito bem com muitas outras terras, dos nossos vizinhos Famalicão, Maia e Santo Tirso até pequenas freguesias como Freamunde, mas que raramente acontece no nosso concelho?

Por outro lado, pensem, por exemplo, na questão da gestão da feira em si. Porquê trazer Quim Barreiros num Sábado em vez de numa Sexta-feira? É que à Sexta-feira, ao contrário do que acontece com alguns funcionários públicos, a maioria dos que ainda têm empregos trabalha. O que faz com que muita gente que lá queira ir tenha que “correr”. E não vou sequer entrar nas pessoas que fazem horas extras, trabalham por turnos, têm filhos para cuidar e outras condicionantes afins. Basta pensarmos que se esse concerto fosse no Sábado, mais gente se deslocaria à Feira, da Trofa e de muitos outros sítios, teriam a possibilidade de chegar mais cedo e, provavelmente, acabariam por consumir mais nos estabelecimentos criados para o efeito. Todos saiam a ganhar. Mas, já agora, com que dinheiro é que um concelho endividado pagou o cachet do Quim Barreiros?

O mais triste é continuarmos a ter “diamantes em bruto” como a Feira Anual ou a Festa da Senhora das Dores, que são grandes eventos e atraem muita gente, mas que continuam a mostrar-se incapazes de passar para o próximo nível, nomeadamente no que toca à população mais jovem, o que passaria obrigatoriamente por uma oferta cultural mais alargada, que acabasse de uma vez por todas com a tendência dos jovens da Trofa para não quererem sair na sua terra. Legitimamente, claro! A oferta nunca foi grande coisa. Outras terras sabem bem colher os frutos do arrojo e da adaptação aos tempos que correm.

E por falar em jovens, tenho uma vaga recordação de uns certos jovens criticarem um certo partido no poder por, imagine-se, gastar muito dinheiro com um concerto em tempos sombrios de austeridade medonha e de divida imensa. Quem seriam esses jovens? Ah História, sua malvada!

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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