Estradas da Trofa: entre o verdadeiro problema e aproveitamento eleitoral

por João Mendes 0

A rede viária do concelho da Trofa é, desde que me lembro, um desastre: desde os tempos do consulado tirsense ao momento actual passando pelos anos de governação social-democrata, não me lembro das estradas trofenses se encontrarem em boas condições. Sempre tive a sensação de viver numa cidade “semi-bombardeada”…

Na curta história do concelho da Trofa, a questão dos buracos tem sido utilizada como arma de arremesso político em período de campanha eleitoral autárquica, esteja quem estiver na oposição. Foi assim antes das autárquicas de 2009 com protestos “cirúrgicos” do PS e da JS Trofa (que levou inclusive a um insólito roubo de faixas) e é assim hoje em dia com o aproximar de novas eleições, desta vez com o PSD e a JSD Trofa a liderar o protesto mais mediatizado (protesto esse que já levou mesmo o “conflito” para um novo nível que envergonhou a Trofa e ficou imortalizado nos media nacionais como a “pancada entre os jotas da Trofa”). Claro que quem está no poder mantém-se calado e sacode a água do capote, agora como em 2009.

Isto deixa-me a pensar no seguinte: será que para os dois partidos que dominam o “aparelho político-partidário” trofense, o verdadeiro cerne da questão está no problema que efectivamente afecta os trofenses ou antes a potencial vantagem eleitoral que esta questão, exaustivamente explorada, poderá trazer a quem se senta na oposição? Não descurando a legítima e honesta preocupação do nosso “bloco central” (mais não seja porque a questão também os afecta igualmente), estou obviamente inclinado para acreditar na segunda hipótese. Caso contrário não os ouviríamos a falar deste tema de forma crítica apenas é só quando se encontram na oposição. Não existem coincidências em época de eleições e da mesma forma que na Assembleia da República estes partidos se sobrepõem ao interesse nacional, também aqui é a lógica partidária de poder que impera por muito que nos digam o contrário: as múltiplas evidências falam por si.

Como somos um concelho jovem e relativamente pequeno é difícil encontrar dados na rede que nos permitam explorar o discurso do PS antes de subir ao poder na Trofa. Contudo, o blog da JS Trofa permite-nos auscultar algumas das posições que os socialistas defendiam na altura (é mais que sabido que as jotas, principalmente em época de eleições, estão perfeitamente articuladas com os seus partidos, uma rápida passagem pelos blogs/facebooks das mesmas e dos seus principais líderes é mais do que esclarecedor daquilo que aqui afirmo) e a palavra de ordem relativamente a este tema era “À espera de eleições para arranjar as estradas?”

Agora os papéis estão invertidos e a antes silenciosa JSD Trofa deu lugar a uma nova e “ultra-reivindicativa“ estrutura que em nada lembra a nula apatia que os caracterizava relativamente a este tema no ido ano de 2009. Colam-se cartazes de elevada qualidade gráfica (mas parcialmente ilegais), de seguida os cartazes são todos “roubados” (à excepção de uma das placas que nunca ninguém chegou bem a perceber se tinha sido ou não roubada) e por fim colam-se novos cartazes cuja sinaléctica foi adaptada para que a Polícia Municipal não os voltasse a retirar e a luta continua! Tudo isto sob a “mudez” de uma JS Trofa que antes colocava faixas de protesto nas estradas do concelho. Agora nem um pio.

Paralelamente, o discurso oficial da coligação PSD/CDS-PP “Unidos pela Trofa” tem também insistido neste tema. Para além das referências habituais nos seus discursos, Sérgio Humberto, candidato social-democrata à CMT foca este assunto com especial destaque na sua mensagem aos trofenses no site da coligação falando da necessidade de “Um concelho com melhores acessibilidades e com as suas vias devidamente mantidas e conservadas.”, uma das metas para as quais aponta o candidato. Contudo, e um pouco à semelhança daquilo que foi já dito relativamente à JSD Trofa, não existe qualquer registo disponível de reivindicações semelhantes do candidato quando em tempos fez parte da equipa que conduzia os destinos da Trofa sob a batuta de Bernardino Vasconcelos.

Do meu ponto de vista, entendo que ambas as estruturas deveriam reivindicar SEMPRE a solução para estes problemas, não apenas quando lhes é conveniente ou quando precisam de ganhar eleições. Isso sim seria estar do lado dos trofenses! Já a postura a que estamos habituados nestas matérias pouco serve o nosso concelho e mais não é do que parte de uma estratégia cujos fins são essencialmente eleitoralistas. Se assim não fosse, a JSD Trofa já teria espalhado cartazes anedóticos pela Trofa em 2009 e a JS Trofa teria também algumas tarjas de protesto estrategicamente distribuídas ao longo da N14.

Entretanto, e como era de esperar, os buracos continuam lá. Todos os dias, eu e todos vocês que agora estão a ler este texto enfiam a vossa viatura em meia-dúzia de buracos e tampas sublevadas. Mas não se preocupem que, tal como em 2009, começamos a ver alguns arranjos nas vias principais. É claro que continuaremos a ter zonas que mais parecem ter sido alvo do ataque de um qualquer drone como é o caso, por exemplo, de praticamente toda a subida até ao alto de Paradela mas hey, pelo menos temos uma “avenida” de duas inúteis faixas a passar ao lado da nossa estação megalómana. Uma avenida inútil para as nossas necessidades mas que PS e PSD fazem questão de disputar a autoria como se isso importasse.

Às vezes fico com a sensação que sobra dinheiro nesta autarquia: ainda há poucas semanas se destruiu uma rotunda praticamente nova e em perfeito estado de conservação para se oferecer uma obra dispendiosa e nada prioritária para os habitantes do concelho. Será que não foi parcialmente (para não dizer totalmente) financiada pela CMT? Quantos buracos já poderiam estar tapados com esse valor?

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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