A cidade fantasma no centro da cidade

por João Mendes 0

(Fonte: Trofa – uma história em fotografias)

Outrora um belo recanto da nossa cidade, o largo entre a antiga estação dos caminhos-de-ferro e o ainda mais antigo restaurante Chalet é hoje um cenário que parece importado de uma espécie de western, onde só falta mesmo aquela bola de poeira e lixo a rodar pelo asfalto. Uma autêntica cidade fantasma frequentada por fantasmas dependentes de heroína e vândalos variados.

Quando tive o prazer de conhecer e aderir no Facebook ao grupo Trofa – uma história em fotografias, um excelente trabalho conduzido pelo Zé Bento Machado, ilustre trofense “exilado” no Brasil com infinitas histórias para contar sobre a nossa terra, ao qual aconselho vivamente uma visita, dei com a foto que abre este post. Inicialmente não reconheci o lugar. A minha existência de 29 anos nunca me permitiu ver o esplendor daquele edifício, já só o conheci em ruínas, neste estado verdadeiramente deplorável:

chalet 2

(Foto: Trofa – uma história em fotografias)

Da mesma forma, a esmagadora maioria dos edifícios em torno da antiga estação, estação incluída, degradam-se de dia para dia. A própria estação, que ainda não bateu no fundo quando vista do exterior, encontra-se totalmente destruída por dentro, com requintes de vandalismo:

Estao Antiga da Trofa

(Foto: David Silva)

Temos, portanto, toxicodependentes e vândalos a controlar a área. E logo ali ao lado temos uma escola E.B. 2/3, repleta de crianças ingénuas e curiosas, que facilmente podem ser atraídas para uma situação que nem me atrevo a imaginar e muito menos descrever. É formidável que, ao fim de 15 anos de concelho, não tenha havido ainda um responsável político com capacidade de tomar medidas para acabar com este cenário vergonhoso. Mais formidável ainda que se explore politicamente a questão da falha na obtenção de fundos comunitários para remodelação da mesma escola por parte do anterior executivo, nomeadamente no que toca aos malefícios da existência de amianto para a saúde dos alunos, quando esta cidade-fantasma a meia dúzia de metros da escola coloca permanentemente em perigo a integridade destas crianças. Permanentemente. Talvez no dia em que uma criança seja violada ou agredida com violência se tomem medidas.

Em defesa da inoperância dos responsáveis políticos sobre este tema, existe uma narrativa que nos alerta para o facto da estação, e respectivo ramal, serem propriedade da REFER e da CP. A esses recordo-lhes que se tratam de empresas públicas, tuteladas pelo governo português, pelo que em vez de desculpas, talvez fosse mais útil que os nossos actuais responsáveis políticos o pressionassem no sentido de solucionar este problema, seja de forma a obter total autonomia para remodelação do espaço do antigo ramal para a criação de infraestruturas de lazer, seja pela total cedência do edifício da antiga estação para usufruto da autarquia e, por conseguinte, de todos os trofenses. Ter um governo da mesma cor que o executivo municipal tem que servir para alguma coisa não acham?

Do alto das minhas utopias perfeitamente realizáveis, via com grande entusiasmo o nascimento de uma pequena casa da cultura neste edifício, orientada para os mais jovens, que até poderia ser gerida em regime de voluntariado pelos mesmos. Teríamos um edifício de suporte, uma vasta área onde poderiam ser instalados equipamentos desportivos ou de lazer e até um pequeno anfiteatro onde o teatro ou a música pudessem florescer. A remoção do muro que separa a estação da rua que vai do Largo Carioca até à Igreja Matriz podia ampliar ainda mais esta zona, criando inclusive uma ligação, através do antigo ramal, ao centro da Trofa e ao renovado parque Dr. Lima Carneiro/Nossa Senhora das Dores. Uma ideia que deixo para quem sabe ou a queira desenvolver. E saliento que não estamos a falar das dezenas ou centenas de milhões necessários para uma variante ou para a construção dos Paços do Concelho. Estamos a falar da qualidade de vida e segurança dos trofenses. Até quando teremos o centro da cidade infectado?

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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