Pequenas dúvidas existenciais: a viatura abandonada por todos

por João Mendes 0

Quando me mudei, no final de Dezembro de 2012, ela já vivia aqui. Penso que não haverá um único dos meus vizinhos que não tenha reparado nela inúmeras vezes. A sua existência resumia-se (e ainda se resume) a estar ali, impávida e serena, no sexto lugar do estacionamento do lado oposto ao prédio. Abstraída do mundo.

Mas os dias passavam, a ferrugem avançava, os pneus esvaziavam e ninguém a vinha buscar. Veio a Primavera, e depois o Verão, e a natureza rodeou-a de revigorante vegetação que prosperou da sombra fresca daquela viatura no meio daquele deserto de paralelo, cimento e movimento de pneus, mas que entretanto foi secando e desaparecendo à medida que o Outono se foi transformando em Inverno. Já passou mais do que um ano (desde que comecei a contar) e ela cá continua. Falo-vos de uma viatura Citroen AX que, qual sem-abrigo, vive no estacionamento em frente a minha casa.

O que será que a trouxe até aqui? Terá sido roubada para algum assalto e abandonada a seguir? Terá sido alguém que se esqueceu dela aqui? Terá o proprietário seguido o conselho de Passos Coelho e emigrado, deixando esta pobre viatura à sua sorte? Ninguém sabe. É todo ele um caso envolto na neblina do mistério…

Depois de muito tempo de dúvidas decidi ir junto deste “sem-abrigo” para avaliar o estado em que se encontrava. Quando lá cheguei, descobri que o meu vizinho do parque de estacionamento já tinha sido “identificado” pelas autoridades (ou então tratar-se-ia de uma sabotagem, algo que para além de fazer pouco sentido é altamente improvável). Uma “identificação”, digamos, sui generis. Estão a ver aquele autocolante no canto superior direito do vidro?

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Trata-se da tal “identificação”, ao que tudo indica efectuada pela Polícia Municipal (PM). Até aqui nada de anormal certo? Vamos ver um pouco mais perto…

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Serei só eu a achar estranho que nesta viatura exista um autocolante da PM que ameaça remover a viatura aparentemente abandonada caso o seu proprietário não a retire do local num prazo indeterminado pela entidade que emite a “ameaça”? Já agora, em que dia terá sido colado este autocolante? E quem o colocou? Será que os espaços em branco, ao contrário daquilo que é habitual quando existem, não serão para preencher? Exactamente que tipo de “identificação” é esta? E a neblina do mistério volta a envolver toda esta situação…

A sensação que fica é que a PM não está muito preocupada com o assunto (a menos que, claro, se trate mesmo do tal estranho caso de sabotagem idiota). Apesar do cartaz afixado (entre outros sítios) nas instalações do Município no edifício Terraços do Infante, onde se apela à denúncia de casos relativos a carros abandonados à própria PM, algo que aparentemente já terá sido feito uma vez que o veículo já está “identificado”, a viatura continua lá. E aquele autocolante com os espaços em branco já lá está há vários meses. O que será que falta para “transladar” a pobre coitada?

Perante tudo isto, a questão que se me coloca é se haverá a mesma motivação/organização para resolver casos destes como aparentemente há para, por exemplo, patrulhar constantemente a Rua Conde São Bento e outras artérias centrais da nossa cidade onde podemos ver os agentes quase todos os dias. Não haverá uma horita para resolver este “detalhe”? São pequenas dúvidas existenciais.


João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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