O investidor francês e aquela “manipulaçãozinha” do costume

por João Mendes 0

Na passada semana, a imprensa nacional noticiou que um investidor francês, proprietário de duas unidades têxteis na Tunísia, decidiu trocar aquele país africano (e exímio produtor têxtil) pelo nosso concelho (também ele com provas mais que dadas no sector). Segundo o Jornal de Negócios, na base da decisão deste empresário estiveram três aspectos fundamentais: qualidade da mão-de-obra, maior estabilidade política e maior estabilidade de preços. Claro que tal só pode ser visto à luz da situação actual da Tunísia, porque estabilidade política é coisa que não temos há bastante tempo. Anda por aí muita gentalha irrevogável que quando se lembra de brincar ao poder político faz com que os juros disparem mais do que todas as decisões do Tribunal Constitucional juntas…

Não podemos negar de que se trata de uma excelente notícia para o mercado laboral trofense: 250 novos postos de trabalho são uma lufada de ar fresco no contexto em que nos encontramos. Claro que é de esperar que este empresário respeite o Código do Trabalho nacional e que não venha para a Trofa com ideias de “exploração” importadas do continente africano. Quero acreditar que tal não acontecerá.

Existe apenas um aspecto que me causa alguma estranheza: um empresário decide deslocalizar a sua produção, abre recrutamento no concelho e, caso queiramos concorrer, teremos que nos dirigir à Câmara Municipal da Trofa. Talvez seja ignorância minha (estou certo que será), mas faz-me alguma confusão. Principalmente pela neblina que habitualmente norteia a “distribuição” de empregos quando as autarquias nacionais que tendem, regra geral, a pagar ou a fazer favores, estão envolvidas. Vou vestir, uma vez mais, a pele de “crente” e torcer para que não seja o caso. Deposito sérias esperanças no actual executivo.

Claro que, como normalmente acontece quando surgem boas notícias, houve imediatamente quem se tentasse apropriar do feito manipulando politicamente esta novidade. Não faltou quem tentasse fazer passar a ideia de que tal decisão se tinha ficado a dever à eleição do novo executivo camarário que nem há dois meses está no poder.Chama-se a isto propaganda política e muito me admira que ainda se recorra à mesma na sua forma mais básica e patética. Sinceramente, será que alguém consegue mesmo imaginar (a menos que seja alguém com ligações à Trofa ou ao actual executivo) um empresário sentado na sua sala em Paris ou Tunes a dizer “Hey pá! Parece que o Sérgio Humberto ganhou as eleições na Trofa! Está na hora de deslocalizarmos para aquele paraíso empresarial instantâneo!!!”? Claro que não. Não só porque isto não é nenhum paraíso empresarial (e a melhor prova disso pode ser medida pela quantidade de empresários trofenses com as suas empresas localizadas nos concelhos vizinhos, com destaque para Famalicão), mas também porque o executivo é ainda tão recente que não tem como pesar nesta escolha.

Vamos lá ver uma coisa: este empresário decidiu-se por Portugal, mais concretamente pela Trofa, devido aos aspectos já mencionados em cima (que foram mencionados pelo próprio). Se Joana Lima estivesse ainda no poder, o homem vinha na mesma. A menos, claro, e como já foi referido, que exista alguma relação mais “particular” com as responsáveis agora em funções. Caso contrário, deixem-se lá dessas “manipulaçõezinhas” e parem de tentar enganar as pessoas. Será que ainda não aprenderam que as “manipulaçõezinhas” tendem a virar-se contra os “manipuladorzinhos”?

João Mendes

Radicalmente contra todas as formas de instrumentalização dos recursos públicos em função dos apetites partidários e com um apetite insaciável pela desconstrução de mentiras e outros embustes que nos são diariamente oferecidos pelas elites dirigentes, a minha luta é por um concelho da Trofa mais transparente, mais íntegro e no sentido da evolução contínua, onde o poder cuja função é servir-nos pode e deve ser questionado. Das pessoas para as pessoas, sem medo nem clientelas.

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